quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Música religiosa brasileira

Cussy de Almeida, maestro

A Igreja Católica brasileira, como conseqüência dos seus próprios equívocos, e na tentativa de recuperar o terreno perdido na permanente evasão de seus seguidores decidiu, na segunda metade do século passado, ainda que equivocadamente, operar uma radical reforma nos ritos da Santa Missa, primando por modificações impostas pela banalização dos ritos, pela erradicação da mística e de vários elementos que ajudavam na indução à crença. Infelizmente nesse balaio de infelizes reformas a grande música da Igreja, aquela que sempre ajudou os fiéis a elevarem o espírito ao Criador, foi, literalmente, jogada no lixo. Em lugar das missas de Bach, de Beethoven, de Mozart, de Handel, dos corais de Palestrina e outros, ou ainda do Canto Gregoriano, surgiu um indefectível estilo de baladas de mau gosto e pobreza melódica, harmônica e de textos, capaz de fazer tremer nos seus túmulos o mais tolerante e paciente daqueles compositores que ajudaram a igreja a atingir a universalidade tão desejada por Cristo.

Com base nessa constatação se torna fácil deduzir porque arrefeceu tanto entre os compositores, o desejo de escrever música sacra. Afinal de que serve compor uma obra complexa, como é uma missa ou um oratório, para ficarem empoeirados numa prateleira de algum arquivo morto e por um tempo indeterminado que presumimos será bastante longo? Daí sermos poucos os compositores brasileiros que tenham se dedicado a esse gênero nas últimas décadas. De minha parte, confesso que com exceção daqueles mais próximos de nós como o maestro Clóvis Pereira e Capiba que escreveram duas importantes missas, já próximo ao fim do século passado, não me lembro, momentaneamente, de outros que tenham escrito alguma obra no gênero. É quase certo, entretanto, que não seremos apenas os três os únicos que se devotaram à música religiosa no final do século passado. Outros com certeza virão. Mas o fato é que não serão muitos.

Em que pese esse desestímulo, dois motivos me foram fortes o bastante para neutralizarem aquele argumento do "esquecimento" que mencionei acima. Afinal, a decisão de escrever uma missa cantada a quatro vozes, no meu caso em latim devido a uma pretendida universalidade da obra, deveria levar algum tempo. Era necessário, antes de começar, encontrar o elemento de motivação. Encontrado esse elemento (os quinhentos anos do Brasil), uma longa e densa pesquisa que pudesse ilustrar de forma explicativa o texto musical propriamente dito, deveria se impor para tornar a obra baseada nas nossas raízes, mais acreditada e acessível no tocante ao aspecto histórico.

O primeiro elemento de motivação para escrevê-la com a temática escolhida, foi a tentativa de reparar um equívoco que cometi há quase quarenta anos quan do comecei a trabalhar com a música baseada em temas das nossas raízes históricas, equívoco aquele que perdurou pro cerca de duas décadas. Como ainda era jovem, me deixei influenciar por terceiros, passando a acreditar que a única música brasileira de origem era tão somente aquela vinda do sertão e que no passado nos chegou pelas mãos do elemento branco vindo da península ibérica. Com o passar dos anos, estudando os legados do meu pai e a própria história da música brasileira, reconsiderei esse posicionamento de exclusão étnica e cultural. Afinal, somos uma nação miscigenada por um tripé racial muito bem definido. O índio, o branco e o negro. E como tal não é possível desassociar essas três raças da nossa formação tanto étnica como cultural. Daí estarem representados nas seis partes que compõem a Missa Brasileira do Descobrimento, esses três elementos. O Kyrie e o Sanctus contemplam os negros com uma dança dos Congos e um Maracatu. O Benedictus e o Credo registram a influência indígena com uma dança dos caboclinhos e um toque de trombetas de Jurupari. E, finalmente, o elemento branco encontra a sua representação no Gloria e no Agnus Dei com temas de rabeca e aboio no primeiro e de uma modinha no segundo.

A segunda motivação se deu pelo fato de estarmos em 1999, um ano antes de completarmos os quinhentos anos do nosso descobrimento. Passei todo aquele ano dedicado à composição da obra. Apesar da frustração com o fiasco que foi o projeto de comemoração da data, graças àquele pouco competente ministro da Cultura de então. Embora frustrado, me vi assim mesmo feliz por ter resgatado, em tempo, um erro do passado o que me assegurou a oportunidade de deixar para as gerações futuras, uma obra a que, independentemente de ser boa ou má, aborda essa temática das raízes que formam a nossa nacionalidade de forma bastante completa no seu aspecto histórico. E isto graças a uma pesquisa bem fundamentada com citações históricas de credibilidade. No que concerne o valor musical em si, deixo essa análise para terceiros muito embora não possa me furtar o desejo de tornar pública a opinião crítica de um dos mais competentes compositores e crítico musical do Brasil atual. Refiro-me ao maestro Edino Krieger que assim se expressou:

"Admirei a sua coerência e a sua fidelidade às raízes que você ajudou a plantar. Também nas obras corais essa coerência está presente, tanto no contexto da linguagem quanto na inteligente utilização das violas sertanejas,que são, como sonoridade, uma opção brasileira para o cravo. A Missa Brasileira do Descobrimento é certamente um trabalho de fôlego do ponto de vista musical e de integração cultural. Se você me autorizar gostaria de encaminhar as partituras para a Academia Brasileira de Música para ficarem à disposição de estudiosos e possíveis intérpretes".

Fonte: DP, Opinião, 27/09/06.

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