sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sobre as orquestras jovens pernambucanas

Estou preparando uma matéria para a Continente de janeiro sobre as orquestras jovens semi-profissionais recifenses (a do Conservatório Pernambucano de Música e a Orq. Jovem de PE, fundada e regida por Rafael Garcia) e há uma pergunta crucial que se refere ao futuro dos integrantes dessas orquestras, já que o horizonte para eles está além-Pernambuco*.

* A não ser que eles queiram aperfeiçoar o submercado de música erudita soft em casamentos, funerais, batizados, coquetéis e solenidades públicas, pois só temos uma única orquestra profissional no Estado, um tanto mofada.

Enviei a pergunta ao Maestro José Renato Accioly, regente da OSJ do CPM, à professora Ana Lúcia Altino Garcia, diretora artística da Ojope e esposa do regente titular, e ao professor Edson Bandeira de Mello, pianista e docente aposentado da UFPE, conhecido no meio musical recifense (consultei-o para obter uma opinião "imparcial", dentro de um conceito de imparcialidade que não implique em algo sobre-humano).

Apenas os dois últimos me responderam e a resposta do Prof. Edson (da qual só poderei utilizar um parágrafo na matéria) foi tão a fundo nessa questão que solicitei autorização para propagá-la aqui no blog.

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O e-mail foi o seguinte:

2008/12/3 Carlos Eduardo Amaral <pb_amaral@hotmail.com>

Prezado Professor Edson,


Acredito que o senhor deva me conhecer da revista Continente. Estou realizando uma matéria sobre as orquestras jovens recifenses (do CPM e a Ojope de Rafael Garcia) e gostaria de um breve consideração sua a respeito da atuação delas e uma resposta a uma pergunta central da reportagem:

Como os atuais integrantes da orquestra, que estão se aperfeiçoando através dela, serão absorvidos pelo mercado de trabalho? A saída de todos os bons músicos nascidos no Estado ainda é a rodoviária e o aeroporto?


Desde já agradeço a atenção.

Cordial Abraço,

Carlos

Carlos Eduardo Amaral

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Eis a resposta do Prof. Edson Bandeira de Mello:

Re: Orquestras jovens‏
De: Edson Mello (edmellomag@gmail.com)
Enviada: sexta-feira, 5 de dezembro de 2008 9:29:34
Para: Carlos Eduardo Amaral (pb_amaral@hotmail.com)

Prezado Carlos Eduardo.

Penso que as Orquestras Jovens que você citou, bem como as que não foram citadas, poderão tornar-se um fator de engrandecimento para a "cultura musical" do Municipio, do Estado e da Região.

Contudo, isto apenas será possível caso os verdadeiros objetivos das Políticas Culturais aqui aplicadas sejam esses e não o de se aproveitar o muito que há a fazer para os jovens das classe pouco favorecidas para, logo depois, deixá-los à mingua e sem um futuro pré-planejado.
Sua pergunta deixa claro que você se preocupa com esta moçada e com o destinos da mesma em uma Região que continua acreditando que a "vinda de turistas" atraidos pela política do "quanto mais exótico melhor" é o objetivo primordial para o futuro de todos, ai incluídos esses jovens que tanto se esforçam para conseguirem elevar-se do nível sobretudo decadente que se instalou por aqui.

De fato, ao vermos o exemplo da Orquestra Sinfônica do Recife apenas temos a lamentar aquilo em que ela se tornou. Hoje ela é, na prática, apenas um elemento político a particiapar de festejos promovidos pelos órgãos oficiais ou pelo desejo de regentes sempre mais plenipotenciários, mais voltados para seus interesses pessoais do que para o desenvolvimento da Arte.

Efetivamente, sente-se a falta de um organismos específico e independente de Planejamento Controle da instituição e de todas as suas atividades.

Uma observação, mesmo superficial, morta que falta, à Sinfônica:
  • um Planejamento Anual Independente que inclua um calendário agendado com o mínimo de um ano de antecendência;
  • uma data semanal fixada para suas apresentações do ano seguinte para possibilitar que o público se habitue a planejar-se tendo a certeza de que que todas as XXX-feiras de todos os meses haverá um Concerto de Alto Nível do Teatro de Santa Isabel;
  • um planejamento de manutenção e aperfeiçaomneto do nível de seu profissionais;
  • um planejamento de formação de plateias digno deste nome;
  • realização de concursos anuais que abram opotunidades aos "jovens solistas" par que mostrem, em público, qual o nível de música que são acapzes de fazer;
  • implementar um quadro de estagiários para o treinamento intensivo dos que se mostrarem capazes de integrá-la ou de integrarem outros conjuntos de objetivos elevados e menos festeiro do que os atuais;
  • aumentar o interesse de todos pela qualidade do que se faz com o dinheiro desse mes o público.
Não é motivo de orgulho termos uma Orquestra que, habitualmente, ao invés de estimular as platéias menos favorecidas a sairem de suas comunidades para irem ao local ideal para ouvirem música de qualidade - que é um Teatro contuído para isto- prefere usar uma pararfernália eletrônica de difícil transporte e que nada tem de músical e que é capaz de engulir todos os sons harmônicos dos instrumentos, em ume miro incapaz de manter a elevação emotiva dos ouvintes através de sua sensibilidade interior para o som e a tudo tranformando em um, piquenique cheio de vendedores, de conversadores, de gritadores, de contadores de casos e de bebedores de cervejas e congêneres.

Eu já tive a oportunidade de dizer a um dos Secretários de Cultura do Município que o PT discrimina a população das periferias ao não incetivá-las a gostar do bom indo ao Teatro de Santa Isabel que é adequandamente preparado para a m´suica de qualidade. De fato é um tipo de discriminação preferir fazer apresentações bisonhas realizadas em locais poucos adequados, os quais em nada melhorarão sua riqueza musical dos ouvintes e o desempemhop dos múcsico participanetes.

Eu tenho na lembrança viva e certamente há regitros convincentes de que:
  • o Maestro Diogo Pacheco sempre fez transbordar o Teatro do Centro de Convenções de Pernambuco com apresentações de alta qualidade da Orquestra Sinfônica todas as quartas-feira de todos os mêses dos ano;
  • o Maestro Vicente Fittipaldi abriu centenas de oportunidades a Jovens Solistas que se destacavam, todos os anos, nos Concursos especialmente abertos para incentivá-los a mostrarem, em público, do que eles eram capazes, livres das arbitrariedades dos donos do pedaço;
  • sistematicamente, eram abertos concursos de performance instrumental que estimulavam solistas locais, regionais e mesmo internacionais a se envolverem e desenvolverem suas atividades, ao mesmo, tempo em que eliminavam o poder dos rodizios inexpugnáveis dos donos da área;
  • Waldemar de Oliveira dirigia uma Sociedade de Cultura Musical a qual, todos os meses, nos trazia grandes intérpretes universalmente aplaudidos para aqui se apresentarem (em duas ou três apresentações todas com Teatros lotados) antes mesmo de o fazerem no Rio, em São Paulo, em Porto Alegre, em Belo Horizonte etc;
  • todos os jornais de Recife tinham dois os mesmo três Críticos Musicais (como os existentes em todos os Grande Centros do Mundo) que tanto educavam o público quanto estimulavam os músicos profissionais a melhorarem suas performances e as entidades musicais oficiais e particulares a melhorarem seus programas e projetos pressionando-os a divulgarem, com objetividade, sua atividades
Bem, seria longo e fastidioso enumerar tudo o que as Orquestras das Rádios, as das Televisões e as de muitas outras entidades que, de fato, já existiram e que tanto já fizerem pela Música de Qualidade por estas plagas.

No entanto, como testemunha de nosso processo de "encolhimento sitemático" e, também, ao me recordar dos "rostos de extase" dos moradores das periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, os quais, estimulados a perderem o natural receio de entrarem nos "amedontradores Teatros" com seus "amedontradores programas" de alta qualidade, aceitaram o desfio e ali se dispuseram a ir, realmente eu faço coro ao receio que sua pergunta deixa antever:
qual será, o destino objetivamente planejado desses jovens que estão dedicando seu futuro ao aprendizado musical de qualidade em uma região tão descuidada e mesmo omissa em:
  • antever a necessidade de que eles tenham um futuro compativel com o esforço que estão fazendo;
  • evitar que esses jovens fiquem, para sempre, dependentes de programas assistenciais dos governos ou de entidade filantrópicas as quais, em geral, são filantrópicas com os recursos dos impostos que o Governo retira da população, o que os inclui como pagantes;
  • perceber que a perda de confiança que pode resultar de tudo isto também pode custar bem caro à sociedade e aos governos que a administram por frustarem e estimularem a revolta dos pretensos beneficiados posteriormente abandonados à própria sorte.
Bem, caríssimo Eduardo: o assunto é longo, cheio de facetas graves que, inexplicavelmente, parecem não ser percebidas.

É triste e penoso de ser tratar do mesmo em um Região que objetiva mais arrecadar do que desenvolver a cultura de seus habitantes.

Qualquer coisa, continuo a seu dispor para que faça uma excelente matéria, capaz de sensibilizar governantes, governados e leitores que, em geral, por não trem claras informações do que já foi, o que está sendo e do que poderá vir a ser feito, despreocupam-se dos problemas que podem advir.

Um grande abraço.
Edson
ps- desulpe os possíveis erros de digitação, mas, meu teclado está todo apagado.

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Post scriptum e autorização:

2008/12/5 Carlos Eduardo Amaral <pb_amaral@hotmail.com>

É, caro Prof. Edson,

Aconteceu o que eu temia: uma longa e consistente resposta sua, da qual só poderei aproveitar um ou dois parágrafos, porém cujo teor deveria ser amplamente divulgado - de cabo a rabo. Pergunto-lhe, como não tenho nenhum outro espaço disponível a não ser meu blog, se o senhor me autorizaria a publicar suas palavras nele. Não é tanta gente que passa pelo blog (tô chegando aos 5 mil acessos por mês), mas repercute bem, já que muitas pessoas "estratégicas", digamos assim, o lêem, bem como o mainstream musical do Rio, São Paulo, Brasília e João Pessoa. Desde já, agradeço novamente a gentileza.

Abraço,

Carlos

Carlos Eduardo Amaral

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Re: Orquestras jovens‏
De: Edson Mello (edmellomag@gmail.com)
Enviada: sexta-feira, 5 de dezembro de 2008 17:39:46
Para: Carlos Eduardo Amaral (pb_amaral@hotmail.com)

Caro Carlos Eduardo.

Não há como negar-lhe aproveitar o texto que lhe encaminhei da melhor maneira possível.
É uma luta que necessita reunir forças para sensibilizar os músicos, o público, os meio de comunicação e as autoridades, pois, é evidente que um "faz de conta que eu estou fazendo" só vai piorar a situação já precária dos jovens que são seduzidos pelos programas que, na maioria das vezes, servem mais a seus autores do que aos que no mesmo se engajam.
Aproveite o que for possível e como for possível.

Um grande abraço.
Edson