terça-feira, 7 de julho de 2009

O eloquente maestro do Virtuosi

Para defender a música erudita, Rafael Garcia exercita seu espírito crítico afiado

Michelle de Assumpção
michelleassumpcao.pe@diariosassociados.com.br


O senso crítico irrefreável é uma marca que anda ao lado da capacidade técnica, artística e ao mesmo tempo

Garcia diz que, quando fala com o público, é um grito de desespero por não poder modificar a realidade do estado. Foto: Hans von Manteuffel/Divulgação
empreendedora do maestro chileno, radicado no Recife, Rafael Garcia. Hoje, quando for inaugurado o Festival Virtuosi de Gravatá, Garcia será seu principal porta-voz. Qualquer pessoa que já o tenha assistido sabe que ele costuma alternar regência e discurso. Pode apenas apresentar o compositor da obra, mas Garcia é mestre também em contextualizar a música erudita dentro do seu mercado e não esconde do seu público o trabalho que é produzi-la a partir dos caminhos possíveis nos dias de hoje: o patrocínio. Não alisa. Se for para falar dos governantes, fala, mesmo se de alguma forma eles contribuíram na viabilização do evento. Um dos seus principais argumentos é o que compara os investimentos públicos feitos em música popular, em detrimento ao realizado para o desenvolvimento da música de escolas e conservatórios.

"Quando eu falo com o público, é um grito de desespero ante a impotência de não poder modificar a realidade estática de nosso estado. Imagine em doze anos do festival Virtuosi, que é um dos maiores do país, se por uma parte temos um público fantástico, por outro lado as autoridades culturais brilham por sua ausência, além da dificuldade tremenda que se tem para conseguir apoio. Tudo isto machuca para quem dá o suor e o sangue por este movimento. Minha luta não é pessoal, é para deixar um caminho com menos pedra para a juventude que acreditou num futuro promissor envolvendo-se com a música clássica", responde Garcia. O maestro de fato mudou a cena da música erudita em Pernambuco, ao lado da mulher, a pianista Ana Lúcia Altino.

Dono de uma trajetória que foi uma constante evolução no meio da música erudita, Garcia é do tipo obstinado e linha dura. O pai, que colocava óperas para que o pequeno Rafael e todos os irmãos ouvissem, queria mesmo era que ele fosse médico. Formou-se na profissão desejada pelo pai, mas só para entregar-lhe o diploma. Seguiu no encalço da música, desde muito cedo. Iniciou os estudos de violino na cidade natal de Santiago do Chile. Aos 16 anos, já tocava na Filarmônica de Santiago. Aos 18, na Filarmônica de Estocolmo. Aos 21 anos ganhou bolsa de estudos do governo alemão e estudou na Academia Superior de Música de Detmold. Estudou mais na Europa e participou de diversos concursos e festivais.

Ao lado dos projetos, as boas críticas foram lhe empurrando para figura das mais bem articuladas no meio. Poucos sabem, mas o maestro também teve passagens pela música pop, quando foi spalla de Elis Regina e Roberto Carlos. "Isso foi na época em que morava em São Paulo. Então fui convidado para ser spalla da orquestra do Falso brilhante, com Tom Jobim e Elis Regina. Esta experiência me marca até os dias de hoje, já que foi um privilégio trabalhar com esses dois artistas. Fui também spalla da orquestra de Roberto Carlos durante um ano, realizando várias excursões pelo interior do estado de São Paulo", conta o maestro.

Os filhos,sobretudo os que também seguiram seus passos, contribuem para a missão da família Garcia/Altino enquanto promotores da música erudita no Recife. Rafael Altino (viola) e Leonardo Altino (cello) geralmente estão em seus respectivos períodos de férias nos Estados Unidos e Europa, onde moram, quando vêm ao Brasil participar das edições do Virtuosi. Garcia considera-se mais pessimista que Ana Lúcia. Segundo ele, foi a mulher quem vislumbrou que o Virtuosi seria uma realização de sucesso. Em vários sentidos, afinal, o Virtuosi para a família do músico não é apenas a forma de movimentar e resgatar a vida musical do Recife. É também a melhor época para juntar todos os filhos, e seus amigos. "É um grande festival e é uma grande reunião de família. Deu certo! O desafio foi e continua sendo enorme. Mas o sucesso de cada edição alimenta a nossa vontade de continuar e de enfrentar esse desafio", conta.