Publicado em 06.07.2009
“A música precisa de plateias que não tenham medo em dizer que odeiam. As pessoas estão muito educadas. É preciso acabar com esse pudor em gritar ‘não gostei disso, booo’”. A frase é do crítico de música clássica da The New Yorker e autor do romance de não-ficção O resto é ruído, Alex Ross. Ele conversou com a reportagem do JC sábado à tarde, enquanto esperava o início da palestra de Gay Talese na Flip.
“As plateias estão muito comportadas. Há uma idéia estabelecida de que, se você estiver num concerto de música clássica, tem de gostar, de que não pode se exaltar nem demonstrar paixão. Precisamos de plateias apaixonadas, que não fiquem apenas aplaudindo baixinho”, reclama Ross. O resto é ruído (finalista do Prêmio Pulitzer ano passado) é um tratado de como os grandes compositores do século 20, colocados hoje em altares intocáveis e santificados, viveram (na maioria das vezes) de maneira escandalosa e receberam respostas nada comportadas do público.
O livro começa com a ruidosa estreia da ópera Salome, de Richard Strauss, em maio de 1906, para as cabeças coroadas na cidade austríaca de Graz. A apresentação foi cercada por um frisson hoje impensável. “A première acontecera em Dresden cinco meses antes, e corria a história de que Strauss passara dos limites com essa criação, um espetáculo bíblico ultradissonante, baseado numa peça de um degenerado irlandês cujo nome não se mencionava em sociedade”, escreveu Ross.
“Muitos dos compositores que vemos aí, tratados como clássicos, como deuses, tiveram uma vida underground. Beethoven é um ótimo exemplo disso”, diz. Ross confessa que assiste a concertos por todo o mundo em busca de algo surpreendente. “Os compositores atuais voltaram ao básico em suas composições. Poucos se arriscam em algo grandioso, radical. Mas, ao contrário de muitos críticos, ainda acho que a música é o lugar para o choque, apenas não vivemos mais num mundo polarizado entre tradicional X vanguarda.”
Será que essa música menos polarizada também não gerou discussões menos polarizadas sobre música na imprensa? “Talvez nos grandes jornais, sim. Mas tem muita gente escrevendo com paixão sobre música pelos blogs”, acredita o jornalista, responsável pelo www.therestisnoise.com. Alex Ross defende que os críticos deveriam ter menos preconceito na hora de julgar os artistas e compositores, que se arriscam para além do território do comportado. Dessa forma, foi irresistível comentar com ele sobre o caso do pernambucano Vitor Araújo, que recebe várias críticas por seu comportamento pouco ortodoxo na hora de tocar piano, unindo All Star e Radiohead. “Deveria ser mais importante a maneira como o artista toca, a técnica que ele tem, do que como ele se comporta em público ou como se veste. Isso não é importante. Quanto a tocar Radiohead, bem... É complicado, não por que ache proibido, apenas que eu acabo preferindo sempre o Radiohead original. No século 19, os concertos misturavam vários estilos de música, vários universos, e não havia problemas.”

